ACERCA
DA MISTURA DOS ELEMENTOS,
PARA
O MESTRE FELIPE DE CASTRO CAELI[1]
Santo
Tomás de Aquino
Muitos
costumam ter dúvidas sobre o modo pelo qual os elementos estão em um corpo
misto.
[Teoria
de Avicena]
Ora,
parece a alguns que, estando as qualidades ativas e passivas dos elementos de
algum modo reduzidas por alteração a uma média, as formas substanciais dos
elementos permanecem[2]:
de fato, se as formas substanciais não permanecessem, pareceria haver algum
tipo de corrupção, e não mistura dos elementos.
Por
outro lado, se a forma substancial do corpo misto for ato da matéria, não
pressupondo as formas dos corpos simples, os corpos simples dos elementos
perderão sua razão. Porquanto é de elementos que algo se compõe
primeiramente, e os elementos existem nele, indivisíveis conforme a espécie;
com efeito, se forem suprimidas as suas formas substanciais, não mais de
corpos simples que nele remanesçam, os corpos mistos serão compostos.
Porém,
é impossível que assim seja. Impossível é, pois, que a mesma matéria
receba as formas de diferentes elementos. Se, portanto, as formas substanciais
dos elementos fossem salvas em um corpo misto, seria necessário que elas
estivessem nas diversas partes da matéria. Mas é impossível à matéria ter
diversas partes, a não ser que se subentenda quantidade na matéria; pois,
suprimida a quantidade, a substância permanece indivisível, como se vê
claramente no livro I da Física[3].
Ora, o corpo físico se constitui da matéria que existe sob quantidade e da
forma substancial que se lhe advém. E assim, as diversas partes da matéria,
que subsistem pelas formas dos elementos, recebem a razão de muitos corpos.
No entanto, é impossível um corpo físico ser simultaneamente muitos corpos.
Os quatro elementos, portanto, não estarão em qualquer parte do corpo misto; e assim, não haverá uma verdadeira mistura, mas uma
mistura aparente, assim como ocorre na agregação de corpos que, por sua pequenez, não
se pode perceber.
Ademais,
toda forma substancial requer uma disposição própria na matéria, sem a
qual não pode existir: donde a alteração ser via para a geração e a
corrupção. Porém, é impossível que a disposição própria que se
requer para a forma do fogo, e a que se requer para a forma da água,
encontrem-se na mesma coisa, pois, conforme tais disposições, o fogo e a água
são contrários. Ora, é impossível que os contrários existam na mesma
coisa. É impossível, portanto, que na mesma parte da mistura estejam as
formas substanciais do fogo e da água. Se, portanto, uma mistura vier a
existir, remanescendo nela as formas substanciais dos corpos simples, segue-se
que não se trata de uma mistura verdadeira, mas somente de uma sensação de
mistura, como se as partes, insensíveis por sua pequenez, estivessem
justapostas.
[Teoria
de Averróis]
Alguns,
no entanto, desejando evitar ambos argumentos, incidiram em maior
inconveniente: pois, para distinguir a mistura dos elementos de sua corrupção,
disseram que as formas substanciais dos elementos de algum modo subsistem na
mistura[4].
Mas, novamente, para que não fossem compelidos a assumir que se trataria
antes de uma mistura aparente que de uma verdadeira,
sustentaram que as formas dos elementos não subsistem na mistura em
sua totalidade, mas reduzidas a alguma média. Com efeito, dizem que as formas
dos elementos admitem mais e menos e têm contrariedade entre si. Mas, porque
isto manifestamente repugna a opinião comum e os dizeres de Aristóteles, que
diz n’As Categorias[5]
que nada é contrário à substância, e que ela não admite mais e menos, vão
mais adiante e dizem que as formas dos elementos são imperfeitíssimas, por
estarem mais próximas da matéria prima: donde serem formas intermediárias
entre as formas substanciais e as acidentais; e assim, enquanto se aproximam
da natureza das formas acidentais, podem admitir mais e menos. Esta posição, entretanto, é em muitas maneiras inaceitável.
Em primeiro lugar, de certo, porque é inteiramente impossível que exista
algum intermediário entre substância e acidente, por isso que seria um
intermediário entre a afirmação e a negação. Com efeito, é próprio do
acidente estar em um sujeito, e da substância não estar em sujeito algum.
Embora as formas substanciais de fato estejam na matéria, elas não estão no
sujeito; pois sujeito significa “este algo”: a forma substancial, por
outro lado, é o que faz com que ele seja “este algo”, sem nunca o
pressupor.
Do
mesmo modo, é ridículo que se julgue haver algum intermediário entre coisas
que não sejam de um mesmo gênero. Pois, como se prova no décimo livro da
Metafísica[6],
é necessário que a média e os extremos sejam do mesmo gênero; nada,
portanto, pode ser um intermediário entre substância e acidente.
Além
disso, é impossível que as formas substanciais dos elementos sejam suscetíveis
de mais e menos. Pois toda forma suscetível de mais e menos é divisível por
acidente, na medida que um sujeito possa participar dela mais ou menos. Porém,
segundo seja divisível por si ou por acidente, o movimento é contínuo, como
é claro no livro sexto da Física[7].
Mudança de lugar, e aumento e
diminuição no tamanho, ocorrem segundo o lugar e a quantidade
respectivamente, que são por si mesmos divisíveis. A alteração, no
entanto, é divisível em conformidade com qualidades que admitam variações
de mais e menos, como o calor ou a brancura. Portanto, se as formas dos
elementos fossem suscetíveis de mais e menos, tanto a geração como a corrupção
dos elementos seria um movimento contínuo. Mas isto é impossível, pois o
movimento contínuo evidentemente não é senão de três gêneros:
quantidade, qualidade e lugar; como se prova no livro V da Física[8].
Além
disso, toda diferença no tocante a forma substancial varia a espécie;
entretanto, o que é suscetível de mais e menos, difere o que é mais do que
é menos, e, de certa maneira, é contrário a ele, como o mais branco o é do
menos branco. Se, portanto, a forma do fogo fosse suscetível de mais e menos,
quer se fizesse mais ou menos, a espécie variaria, e não seria a mesma
forma, mas outra. E desse ponto é que o Filósofo diz no livro VIII da Metafísica,
que assim como nos números, que variam a espécie por adição e subtração,
assim nas substâncias.
[Teoria
de S. Tomás]
É
necessário, portanto, descobrir outra explicação que não apenas salve a
verdade da mistura, mas também o fato dos elementos não estarem
completamente corrompidos, e sim de alguma forma conservados na mistura.
Deve
ser considerado, portanto, que as qualidades ativas e passivas dos elementos são
contrárias umas as outras, e são suscetíveis de mais e menos. Ora,
dessas qualidades contrárias, suscetíveis de mais e menos, pode-se
constituir uma qualidade média, que tenha o sabor da natureza de ambos
extremos, como o cinza entre o branco e o negro, e o tépido entre o
quente e o frio. Assim, abrandadas as qualidades extremas dos elementos,
constitui-se destas uma qualidade média, que é a qualidade própria do corpo
misto, e que difere, todavia, em diversos [corpos mistos] conforme a
diversa proporção da mistura: e esta qualidade é, de fato, a disposição própria
da forma do corpo misto, assim como a qualidade simples da
forma de um corpo simples. Portanto, assim como os extremos se encontram na média,
que participa da natureza dos extremos, assim as qualidades dos corpos simples
se encontram na qualidade própria do corpo misto. Embora a qualidade do corpo
simples de fato seja outra que da sua própria forma substancial, atua em
virtude da forma substancial. Caso contrário, o calor apenas aqueceria, sem
que, por sua ação, a forma substancial fosse atualizada, já que nada opera
além de sua espécie. Assim, portanto, as virtudes das formas substanciais
dos corpos simples são salvas nos corpos mistos.
As
formas dos elementos estão portanto nos corpos mistos; não, em verdade, em
ato, mas virtualmente. E isto é o que Aristóteles disse no livro I Sobre a
Geração e Corrupção[9]:
“Evidentemente, não permanecem os elementos em ato, como o corpo e sua
brancura, nem se corrompem, nem um nem os dois: pois sua virtude se salva”.
Tradução: Permanência
Notas:
[1] [N. da P.] Este opúsculo encontra-se com as mesmas palavras no comentário de Sto. Tomás sobre Aristóteles: Sobre a Geração e Corrupção, livro I, XXIV.
[2]
[N. da P.] Avicena, Sufficientia, I,6;
Metaphysica, VIII,2.
[3] [N. da P.] Aristóteles, Física, 185b 16.
[4]
[N. da P.] Averróis, In De Caelo, III,
c. 67
[5]
[N.da P.] Aristóteles, As Categorias, 5 3b24 e 3b33-34
[6] [N. da P.] Aristóteles, Metafísica, 9 1057a 19–20 & 1057a 33–b1
[7]
[N.
da P.] Aristóteles,
Física, 5
234b 10–20
[8] [N. da P.] Aristóteles, Física, 3–4 225b7–9 e 226a24–b10
[9] [N. da P.] Aristóteles, Sobre a Geração e Corrupção, 10 327b 29-31