o culto a deus

Sexta-feira após o domingo da Sexagésima   

  

«Não terás outros deuses diante de mim» (Ex 20, 3)

  

Não nos é permitido cultuar senão um só Deus, e isso por cinco razões:

 

1. Pela dignidade de Deus: quando não observada, comete-se uma injúria a Deus. Ora, a toda dignidade se deve reverência. Trai o rei quem lhe recusa a honra que lhe é devida, e isso alguns fazem contra Deus, conforme os denuncia o Apóstolo: "e transferiram a glória devida a Deus para a figura de um simulacro de homem corruptível" (Rm 1, 23). E isto desagrada sobremaneira a Deus.

 

2. Pela sua generosidade. Tudo que nós possuímos vem de Deus; e também à sua dignidade corresponde ser o criador e o dispensador de todos os bens. Diz o Salmista: "abrindo a tua mão, enchem-se de bens" (Sl 103, 28). É, portanto, grande a ingratidão de quem não reconhece seus dons: faz de si mesmo um outro deus, como os filhos de Israel, fugidos do Egito, fizeram ídolos. Oseias os faz falar como uma prostituta: "Irei após os meus amantes, que me dão o meu pão e a minha água" (Os 2, 5).

 

O mesmo se dá quando se coloca esperança em outro que em Deus, e se faz o contrário do que recomenda o salmista: "Bem-aventurado o homem que pôs a sua esperança no Senhor" (Sl 33, 5). "Porém, agora, tendo vós conhecido a Deus, ou antes, sendo conhecidos de Deus, como voltais novamente aos rudimentos fracos e pobres, aos quais quereis de novo servir?" (Gl 4, 9).

 

3. Pela firmeza de nossas promessas. Renunciamos ao diabo e prometemos fidelidade  só à Deus; não podemos quebrar nossa promessa. "Se alguém violar a lei de Moisés, sob a deposição de duas ou três testemunhas, morre sem remissão alguma; imaginai vós quanto maiores tormentos merecerá o que tiver calcado aos pés o FIlho de Deus, e tiver considerado como profanado o sangue do testamento, com que foi santificado, e tiver ultrajado o Espírito da graça?" (Heb 10, 28). E São Paulo, fazendo uma comparação com as leis matrimoniais, diz: "vivendo o marido, será considerada adultera se estiver com outro homem" (Rm 7, 3). E como tal, mereceria ser queimada. Ai do pecador que entra na terra por duas vias e claudica dos dois pés!

 

4. Pelo peso do domínio do demônio. Como diz Jeremias: "Expulsar-vos-ei desta terra para uma terra que não conheceis, nem vós, nem vossos pais; servireis ali a deuses estranhos, de dia e de noite, porque não vos farão mercê" (Jr 16, 13). O demônio não se satisfaz com um só pecado, mas se empenha em conduzir a novos. "Todo o que comete o pecado, é escravo do pecado" (Jo 8, 34),  por isso, não é facilmente que se sai do pecado. São Gregório diz: "o pecado que não foi diluído pela penitência, logo leva a um novo pecado por seu peso".

 

O contrário ocorre com o domínio de Deus, que não é pesado: "o meu jugo é suave, e o meu peso leve" (Mt 11, 30). Considera-se que se faz o bastante, se ao menos se faz por Deus tanto quanto se faz pelo pecado: "assim como oferecestes os vossos membros para servirem à imundice e à iniqüidade, a fim de chegar à iniqüidade, assim oferecei agora os vossos membros para servirem a justiça, a fim de chegar à santificação" (Rm 6, 19). Mas dos servos do diabo se diz: "Cansamo-nos nas sendas da iniqüidade e da perdição, andamos por desertos sem caminhos" (Sb 5, 7) e "cansam-se em fazer o mal" (Jr 9, 5).

 

5. Pela imensidão da recompensa ou do prêmio. Em nenhuma outra lei, são prometidos prêmios tão grandes quantos os promete Cristo. Aos sarracenos foi prometido rios de leite e mel; aos judeus, a Terra prometida; mas aos cristãos, a glória dos anjos. "serão como os anjos de Deus no céu" (Mt 12, 30). Considerando isso, São Pedro exclama: "Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna" (Jo 6, 69).

     

In Decalog., XII

      

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

  

 

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