O SÁBIO ARQUITETO
J. Maritain
Nos diversos momentos da história, sobretudo nos de transformação maior, podem-se encontrar dois elementos bem diferentes se, por assim dizer, efetuarmos cortes no tecido das coisas humanas: de um lado um elemento muito importante quanto à matéria e ao volume, que representa o resultado maciço, e feito da queda do trabalhado passado: elemento que poderíamos chamar fator estático ou fator de resistência, e que significa, antes de tudo, algo feito, terminado, acabado.
E um outro elemento que nada é quanto ao volume e à aparência, mas que vale muito mais quanto à energia, elemento esse que chamaríamos de fator dinâmico ou fator de força viva e que se prepara ativamente, e que desempenha o papel formal na geração dos tempos futuros.
Do lado do primeiro elemento, do fator estático, o que nos impressiona no mundo contemporâneo, nesse mundo da destruição capitalista[1] e positivista, no mundo da civilização antiteológica e antimetafísica, é esse miserável produto que se chama homem moderno, esse ser cortado de todas as raízes ontológicas e de todos os seus dons transcendentes que, por ter procurado seu centro em si mesmo, não é mais do que um lobo uivando de desespero em busca da eternidade, como diz Herman Hesse. Mas também por isso mesmo constatamos que o mundo fez e completou a experiência do positivismo, do ceticismo pseudocientífico, do idealismo subjetivista, e que essa experiência foi suficientemente demonstrativa. Umas coisas morreram. Durante muito tempo ainda nos incomodarão como entulhos cadavéricos; mas estão mortas.
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Se consideramos o outro elemento histórico, o fator dinâmico do mundo atual, o que percebemos, ao contrário, é um profundo, uma imensa necessidade metafísica, um grande impulso na direção da restauração de valores ontológicos. O mundo que quer ser, que quer surgir no futuro, não é um mundo do positivismo, é um mundo da metafísica. Ai de nós! ― bastará dizer ressurreição da metafísica? É preciso ainda que essa metafísica seja verdadeiramente a metafísica. Não quero desprezar todos os serviços que de fato puderam prestar o bergsonismo na França, o movimento neo-hegeliano na Inglaterra, o movimento fenomenologista na Alemanha. Mas enfim é preciso dizer que uma metafísica que desembocasse no transformismo sem substância e num puro mobilismo vital, ou num moralismo polytheista, ou ainda numa ontologia ateística, não seria um remédio para a humanidade. A ressurreição da metafísica significa sobretudo que chegamos a uma era de grandes conflitos metafísicos, de grandes combates do espírito: onde não somente entrarão na liça os sistemas saídos da especulação européia, mas também os sistemas asiáticos rejuvenecidos por pensadores modernos muito lúcidos e notáveis, como os que já encontramos no Japão e na Índia.
Para nos orientar no meio desses conflitos metafísicos a qual guia poderíamos nos dirigir? Tomás de Aquino nos ensina a fazer na ordem intelectual esse discernimento do bom e do mal, do verdadeiro e do falso, que é como uma operação da triagem angélica; ele nos ensina a salvar todas as intenções de verdade contidas na diversidade dos sistemas, e a retificar o resto numa síntese equilibrada sobre o real. Porque um dos caracteres próprios de seu pensamento não é certamente um ecletismo mole e sem princípios, mas, ao contrário, é uma tal elevação e um tal rigor de princípios que seu pensamento, na sua eminência, e transcendendo-os, reconcilia as doutrinas mais antinômicas, que não aparecerão mais senão como as vertentes opostas da mesma elevação.
São Tomás, aprofundando a natureza íntima do conhecimento e da vida própria da inteligência, melhor do que nenhum outro pensador ― contra o positivismo, mas assumindo toda a parte da experiência, e contra o idealismo, mas assumindo toda a parte da atividade imanente e construtiva do espírito ― funda em razão a objetividade do conhecimento, os direitos e o valor da ciência do ser. Mas também estabelece, contra as falsas metafísicas que ameaçam nos atacar; contra o imanentismo panteísta que alguns nos quereriam impor em nome do Oriente contra o pragmatismo do Extremo-Ocidente, e contra o intelectualismo ateu que surgem em nossos países ― São Tomás estabelece a transcendência d´Aquele que conhecemos por suas criaturas mas que não tem com elas medida comum, que é ser, inteligência, bondade, vida, beatitude mas que transborda e ultrapassa ao espírito nossas idéias de ser, de inteligência, de bondade e de todas as outras perfeições, em resumo: que nossos conceitos atingem por analogia, mas não circunscrevem.
Assim a metafísica se eleva entre suas mãos acima do agnosticismo e do racionalismo subindo, a partir da experiência até o Ser incriado, ela restabelece no espírito humano a justa hierarquia dos valores especulativos, começa em nós a ordem da Sabedoria.
Trata-se agora dos valores éticos e da conduta da vida humana, então será fácil verificar a que ponto o mundo contemporâneo é o mundo do egoísmo, da mesquinha, da frieza. E como, desde o instante que o homem empreende bastar-se a si mesmo, tudo no homem se quebra e se resseca numa destruição sem remédio. É isto ao menos o que se vê em relação ao passado próximo. E em verdade o amor não vive senão de Deus ou daquilo que Ele diviniza; e quando Deus não o vivifica, esse nada de amor se deteriora em desprezo ou ódio. É por isso que o amor da humanidade sem Deus não poderia chegar senão a esse estado em que cada um nada mais possui como último recurso senão a adoração de si mesmo ou o suicídio.
No que, ao contrário, concerne o segundo elemento histórico a que atrás aludimos, o elemento dinâmico, o que nos revela o mundo contemporâneo, em razão mesmo da espécie de impossibilidade de viver criada pelo egoísmo antropocêntrico, é a necessidade e o pressentimento de uma vasta efusão de amor. Mas ainda aqui tenhamos cuidado contra as falsificações! Como é preciso estar atento contra as falsas metafísicas, também é preciso vigiar as formas mentirosas do amor.
Um falso misticismo humanitário, pseudobúdico, teosófico, ou antroposófico, um falso reino do coração que pretenderia se instalar à custa da inteligência, com desprezo do Verbo criador e formador de suas leis, uma espécie de heresia quietista que nos reduziria a não mais sermos homens porque teríamos perdido a própria noção da verdade, e que nos dissolveria numa sensualidade poética equívoca, indigna do nome de amor ― eis alguns dos males que nos ameaçam neste ponto de vista. Estamos longe do materialismo do século XIX, é do lado de um pseudo-espiritualismo e de um pseudo misticismo que surgirão para nosso tempo os maiores perigos de desvio.
O "Doutor Angélico" nos mostra o reto caminho, nos lembra que a ordem está no coração do amor santo, e que se em Deus o Amor subsistente procede do Pai e do Verbo incriado, em nós também é preciso que o amor proceda da verdade, passe pelo lago do Verbo; senão ele será perturbador e destruidor.
São Tomás nos lembra assim que o amor natural, a bondade por nossos irmãos, não se liberta e não se realiza perfeitamente senão nessa mesma dileção sobrenatural que leva a amar Deus acima de tudo. Então ― segundo essa ordem admirável da Caridade que é descrita na IIa IIae da Suma, e que chega a todos sem lesar os privilégios nativos de cada um ― o amor que nos une, por cima do ser, ao princípio do ser, volta às criaturas com uma força divina, quebra todos os obstáculos, aquece todas as friezas, abre um mundo novo que revela os atributos divinos de cem modo mais profundo, insuspeito, onde os seres não se conhecem somente, mas se reconhecem, ele nos faz querer o bem de nossos inimigos. Assim é preciso afirmar, em face das deliquescências do sentimentalismo e do culto naturalista da espécie humana, a verdadeira natureza do amor divino. E contra os endurecimentos devidos à adoração da força, ao culto naturalista do indivíduo, da classe, da raça ou da nação, é o primado do amor divino que devemos afirmar. Caritas major omnium. Será preciso frisar aqui que toda esta ética de Santo Tomás está fundada sobre esta doutrina, que ele tem do Evangelho e de São Paulo? Ele construiu sobre esse ensino evangélico a preciosa síntese teológica onde mostra como o amor, que nos faz tender retamente para nosso fim último, tem um primado prático absoluto sobre toda nossa vida individual e social, e constitui o vínculo da perfeição, e como para nós é melhor amar Deus do que conhecê-lo [2] e como sem esse amor nenhuma virtude é pura e simplesmente virtude, não atinge sua forma perfeita, nem mesmo a justiça. E São Tomás sabe que esse amor não se torna verdadeiramente senhor da vida humana e não se torna um amor de Deus efetivamente acima de todas as coisas, e do próximo como de si mesmo, senão quando é sobrenaturalmente enraizado na Fé que procede da abundância de Graças de Cristo que nos torna, como imagem do Crucificado, filho e herdeiros do Deus que é Amor. Sigamos o "Doutor Angélico" e compreendamos bem que a paz no homem e entre os homens (obra direta da caridade, opus caritatis, "porque o amor é uma força unitiva, e a causa eficiente da unidade") desce [3] dessa Paz superessencial e desse Amor eterno que reside no coração da Trindade.
O mal dos tempos modernos, como lembrávamos no começo deste estudo, consiste em tomar a cultura, que é uma certa perfeição d homem, como seu próprio fim último. Ela desconheceu primeiro, na sua fase cartesiana, e filosofante tudo o que ultrapassa o nível da razão; acaba desconhecendo a própria razão, sujeita ao mesmo tempo à lei da carne e à vertigem espiritual a que o irracionalismo inevitavelmente arrasta o homem. "O erro do mundo moderno foi o de pretender garantir o reino da razão sobre a natureza, recusando o reino da sobrenatureza sobre a razão" [4].
E é por isso que, até mesmo na ordem do conhecimento, a metafísica, de que falávamos há pouco, ainda é um remédio insuficiente. Uma outra sabedoria, mais alta e mais divina, nasce do amor graças aos dons do Espírito Santo. Antes de tudo e dessa sabedoria mística que nossa miséria tem fome e sede, porque só ela sacia e desaltera, sendo união experimental com as coisas divinas e beatitude começada. Entretanto essa sabedoria ainda nos deixa fome e sede que só a visão plena de Deus pode saturar.
São João da Cruz é o grande doutor experimental dessa sabedoria, São Tomás de Aquino é o grande teólogo. E porque, melhor do que ninguém, fixou a verdade central que não podemos desconhecer sem ferir o coração da contemplação, e o próprio cristianismo ― quero dizer a distinção entre a natureza e a graça, a interpenetração de ambas, e viva compenetração, e todo o organismo dos dons infusos ― por isso, São Tomás melhor do que qualquer outro, explica a verdadeira natureza da sabedoria mística e a defende de todas as falsificações.
Este é o mais alto benefício que podemos dele esperar do ponto de vista de uma renovação da cultura cristã: porque em definitivo é a essa sabedoria e a essa contemplação que neste mundo está suspensa toda a ordem cristã.
(de "Le Docteur angelique", cap. II, Jacques Maritain. Tradução: Gustavo Corção)
Notas:
[1] Nota do tradutor: Creio que o termo "liberal" seria aqui menos equívoco.
[2] Nota do tradutor: Em "Dois Amores Duas Cidades", II, p. 111, citamos Garrigou-Lagrange em comentário à Ia. q. 82, a. 3: "ainda que uma faculdade seja, por sua própria natureza superior à outra, como a vista para o ouvido, pode acontecer que um ato da segunda seja superior a um ato da primeira (...) Em relação a Deus, aqui nesse mundo, o amor é melhor que o conhecimento; em relação às coisas inferiores, porém, é melhor conhecer do que amar..." (Perfection Chrétienne et Contemplation, ed. Vie Spirituelle 193, Tome I, p. 166 e 167).
[3] Nota do tradutor: E só pode descer de Deus, e não dos vãos aparelhos com que o mundo moderno tenta desprender-se de Deus. Uma dessas caricaturas é a ONU que tem despertado tanto entusiasmo na Igreja de nosso perturbado tempo.
[4] Cfr. "Primauté du Spirituel", pg. 8.