Os Comentadores DE SANTO TOMÁS
Garrigou-Lagrange, O. P..
Não trataremos aqui senão dos comentadores que pertencem à escola Tomista propriamente dita. Não incluiremos os comentadores ecléticos que certamente emprestam largamente de Tomás, mas tentam uni-lo a Duns Escoto, refutando, às vezes, um pelo outro, ao risco de quase sempre oscilar entre ambos, sem jamais se posicionar de modo definitivo.
Na história dos comentadores, distinguimos três períodos. No primeiro período, encontramos “defensiones” contra os vários adversários da doutrina tomista. No segundo período aparecem comentários propriamente ditos. Eles comentam a Summa theologiae. Os comentários seguem artigo por artigo, conforme o método que podemos chamar clássico, normalmente utilizado antes do Concílio de Trento. No terceiro período, após o Concílio, para fazer face a um novo tipo de oposição, os comentadores normalmente não mais seguiam a letra da Summa, comentando artigo por artigo, mas escreviam “disputationes” sobre os problemas debatidos em seu próprio tempo. Cada um dos métodos tinha sua própria raison d´être. A síntese tomista, pois, tem sido estudada desde diversos pontos de vista, ao contrário de outros sistemas teológicos. Vejamos como isso se deu em cada um desses períodos.
Os primeiros Tomistas surgiram no final do século XIII, começo do XIV. Eles defendiam S. Tomás contra certos Agostinianos da velha escola, contra os Nominalistas e contra os Escotistas. Devemos destacar os trabalhos de Herve de Nedellec contra Henrique de Gand; os de Tomás Sutton contra Escoto; os de Durand de Aurillac contra Durand de São Ponciano e contra os primeiros nominalistas.
Em seguida, ainda no mesmo período, vieram trabalhos de maior envergadura. Encontramos aqui João Capreolo, cujas Defensiones valeram-lhe o título de princeps thomistarum. Capreolo segue a ordem das Sentenças de Lombardo, mas sempre compara os comentários de Tomás a esta obra com os textos da Summa Theologiae e das questões disputadas. Ele escreve contra os Nominalistas e Escotistas. Trabalhos similares foram escritos na Hungria, por Pedro Niger e na Espanha, por Diego de Deza, o protetor de Cristóvão Colombo. Quando a Summa foi adotada como livro texto, comentários explícitos sobre a Summa theologiae começaram a surgir. O primeiro foi o de Caetano (Thomas de Vio). Seu comentário é considerado a interpretação clássica da obra de S. Tomás. Depois vieram Conrado Kollin, Silvestre de Ferrara e Francisco de Vitória. O trabalho de Vitória permaneceu muito tempo em manuscrito, e só foi publicado recentemente. Um segundo trabalho de Vitória, Relectiones Theologicae, da mesma maneira, só foi publicado recentemente.
Numerosos tomistas participaram dos trabalhos preparatórios para o Concílio de Trento. Dentre estes, notadamente, Bartolomeu de Carranza, Domingos Soto, Melquior Cano e Pedro de Soto. O próprio Concílio, nos seus decretos sobre o modo de preparar-se para a justificação, reproduz a substância de um artigo de S. Tomás. Ademais, no capítulo seguinte sobre as causas da justificação, o Concílio reproduz novamente o ensinamento do santo. Quando em 11 de Abril de 1567, quatro anos após o encerramento do Concílio, Tomás de Aquino foi declarado doutor da Igreja, Pio V, recomendando a doutrina do santo como a demolição de todas as heresias desde o século XIII, rematou com estas palavras, “como claramente se viu recentemente, nos sagrados decretos do Concílio de Trento”
Depois do Concílio, os comentadores, como de regra, escreveram Disputationes. Excepcionalmente, Domingos Banez, ainda comenta a Summa artigo por artigo. Os principais nomes desse período são Bartolomeu de Medina e Domingos Banez. Devemos mencionar também Tomás de Lemos (1629), Diego Alvares (1635), João de Santo Tomás (1644) e Pedro de Godói (1677). Todos espanhóis. Na Itália encontramos Vicente Gotti (1742), Daniel Concina (1756), Vicente Patuzzi (1672) e Salvatore Roselli (1785). Em França, Jean Nicolai (1663), Vicente Contenson (1674), Vicente Baron (1674), Jean Baptiste Gonet (1681), A. Goudin (1695), Antonin Massoulie (1706) e Jacinte Serry (1738). Na Bélgica, Charles René Billuart (1751). Dentre os carmelitas, mencionemos: os Complutenses, Cursus Philosophicus, e os Salmaticences, Cursus Theologicus.
Vejamos agora o método e a importância dos maiores dentre esses comentadores. Capreolo correlaciona, como visto acima, a Suma e as questões disputadas com as Sentenças de Lombardo. Ao responder a Nominalistas e Escotistas, pôs em relevo a continuidade do pensamento do santo.
Silvestre de Ferrara mostra que o conteúdo da Suma contra os Gentios está em harmonia com a grande simplicidade da Suma Teológica. Seu valor está especialmente em algumas grandes questões: o desejo natural de ver Deus; a infalibilidade dos decretos da providência; a imutabilidade do bem e do mal na alma após a morte, desde o primeiro momento da separação entre corpo e alma. O comentário de Silvestre foi reimpresso na edição leonina da Suma contra os Gentios.
Caetano comenta a Summa theologiae artigo por artigo, mostra suas interconexões, enfatiza a força de cada prova, isola o medium probativo. Então, examina longamente as objeções de seus adversários, particularmente as de Durand e Escoto. Sua virtuosidade como lógico está a serviço da intuição. Em Caetano, o senso do mistério é notável. Exemplos se verificam mais tarde, quando tratou da pré-eminência da Divindade. Caetano é igualmente o grande defensor da distinção entre essência e existência. Seu comentário sobre a Summa Theologiae foi reimpresso na edição leonina.
Domingos Banez é um comentador cuidadoso, profundo, sóbrio, de grande capacidade lógica e metafísica. Tentativas foram feitas no sentido de considerá-lo fundador de uma nova escola teológica. Contudo, realmente, sua doutrina não difere da de Santo Tomás. Ele apenas insere termos mais precisos, a fim de eliminar falsas interpretações. Suas fórmulas não exageram a doutrina do santo. Mesmo termos tais como “pré-definição” e “pré-determinação” foram empregados por Aquino ao explicar os decretos divinos. Um tomista talvez prefira os termos mais sóbrios e simples que S. Tomás ordinariamente emprega, mas à condição de bem entendê-las, excluindo as falsas interpretações que Banez teve de excluir.
João de Santo Tomás escreveu um prestimoso Cursus Philosophicus Thomisticus. Autores subseqüentes de manuais filosóficos, E. Hugon, O. P.; Gredt, O. S. B.; X. Maquart, emprestaram dele largamente. De igual modo, J. Maritain encontrou nele muita inspiração. No trabalho teológico de João, Cursus Theologicus, encontramos as disputationes sobre as grandes questões debatidas na época. Ele compara o ensinamento de S. Tomás com os de outros, especialmente com os de Suarez, Vasquez e Molina. João é mais um intuitivo, é antes um contemplativo a um dialético. Sob o risco de tornar-se prolixo, ele sempre retorna à mesma idéia, para perscrutar suas profundidades e irradiações. Talvez soe repetitivo, mas seu apelo contínuo aos mesmos princípios, aos grandes leitmotifs, funciona bem para elevar o espírito penetrante aos píncaros da doutrina. Repetidamente, João insiste nas seguintes doutrinas: analogia do ser, distinção real entre essência e existência, potência obediente, liberdade divina, eficácia intrínseca dos decretos divinos e da graça, especificação dos hábitos e dos atos pelo seu objeto formal, a sobrenaturalidade essencial da virtude infusa, os dons do Espírito Santo e a contemplação infusa. João deve ser também estudado nestas seguintes questões: a personalidade de Cristo, a graça da união em Cristo, a graça habitual em Cristo, a causalidade dos sacramentos, a transubstanciação e o sacrifício da Missa.
Os carmelitas de Salamanca e os Salmaticenses assemelham-se a João de S. Tomás em seus métodos. Resumindo, primeiro dão a letra do artigo, depois acrescentam as disputationes e as dubia nas questões controversas. Algumas destas dubia, em relação a questões secundárias, podem parecer supérfluas. Contudo, quem consulta os Salmaticeses nas questões fundamentais deve reconhecer neles grandes teólogos, em geral muito leais ao ensinamento de S. Tomás. Você pode testar esta afirmação ao seguir esta lista de temas: os atributos divinos, o desejo natural de ver Deus, a potência obediente, o caráter absolutamente sobrenatural da visão beatífica, a eficácia intrínseca dos decretos divinos e da graça, o caráter essencialmente sobrenatural das virtudes infusas, particularmente das virtudes teologais, a personalidade de Cristo, Sua liberdade, o valor, intrinsecamente infinito, de Seus méritos e satisfação, a causalidade dos sacramentos, a essência do sacrifício da Missa.
Gonet, que recapitulou o que havia de melhor entre seus predecessores, mas que também, em muitas questões, fez trabalho original, destaca-se pela grande clareza. Igualmente, o Cadeal Gotti, que dedicou maior atenção à teologia positiva. Billuart, mais suscinto que Gonet, deu um substancioso sumário dos grandes comentadores. De forma geral, ele é fiel a Tomas, citando-o larga e freqüentemente nas próprias palavras do santo.
Conquanto não citemos em detalhe os trabalhos dos tomistas contemporâneos, faz-se mister mencionar os dois trabalhos de N. del Prado: De veritade fundamentali philosophiae christianae e De Gratia et liberto arbitrio. Ele segue de perto Banez. Ademais, há os três trabalhos de A. Gardeil: La credibilité et l´apologetique, Le donné revelé et la theologie e La structure de l´ame et l´experience mystique. Mesmo inspirado em João de Santo Tomás, seu trabalho permanece sendo pessoal e original.
Dentre estes que contribuíram ao ressurgimento dos estudos tomistas, antes e depois de Leão XIII, precisamos mencionar oito nomes: Sanseverino, Kleutgen, S. J.; Cornoldi, S. J.; Cardeal Zigliara, O. P.; Buonpensiere, O. P.; L. Billot, S. J.; G. Mattiussi, S. J.; e Cardeal Mercier.
(REALITY—A Synthesis Of Thomistic Thought, cap. 3, "Thomistic commentators" )