NOTAS SOBRE A POSIÇÃO DE STO. TOMÁS COM RELAÇÃO À ASTROLOGIA
Para
maior esclarecimento quanto à posição de Santo Tomás de Aquino, publicamos estas notas extraídas das “Conclusões” do capítulo X
do livro "Les
corps célestes dans l´univers de saint Thomas d´Aquin",
de Thomas Litt, O.C.S.O (Publications
Universitaires —
Louvain, Belgique, 1963, p. 240-241). Entre colchetes,
algumas observações de nossa autoria:
Finalmente
cremos poder resumir como segue a posição de Santo Tomás com respeito à
astrologia:
1.
Ele afirma como absolutamente certo o princípio geral de uma influência
universal dos corpos celestes sobre todos os eventos corporais da terra, incluídos
os eventos fisiológicos concernentes aos animais e aos homens.
É
para ele uma certeza filosófica absoluta; é, ademais, uma verdade de senso
comum (II Sent., 15, 1, 2, c.) e é
também uma verdade ensinada pelas "autoridades dos santos" (ibidem); ele cita notadamente Dênis e Santo Agostinho (p.ex., Ia,
115, 3, sed contra).
[A influência admitida restringe-se aos eventos corporais. Nisso, na
Suma Contra os Gentios, Santo Tomás é taxativo: "é impossível que a
operação intelectual esteja sujeita aos movimentos celestes" (III. 84). Da mesma forma, o aquinatense nega qualquer influência
dos astros sobre nossa vontade, como
se vê na epistola supra, "...
é preciso absolutamente compreender que a vontade do homem não está sujeita
à necessidade dos astros". Assim,
Santo Tomás exclui do raio de influência dos astros justamente
as faculdades que especificam o homem — os intelectos e a vontade.]
2.
Ele afirma com igual certeza que a influência dos corpos celestes sobre os atos
humanos é indireta e jamais necessitante. Acrescenta mui freqüentemente que a
opinião contrária é herética, porque exclui a liberdade humana.
[Isso fica claro nessa passagem da C. G. (III. 85): "[os corpos celestes] podem ser, não obstante, causa ocasional indiretamente (...)". E o exemplo clarifica: "por exemplo, quando por disposição dos corpos celestes o ar se esfria intensamente, decidimos esquentar-mo-nos no fogo ou outras coisas em consonância com o tempo".]
3.
Ele não se pergunta nem uma única vez se o axioma ou postulado astrológico
fundamental é fundado ou não: a importância decisiva, sobre todo o futuro de
um homem, da configuração do céu no momento de seu nascimento (tema de
genitura).
Não
encontramos senão uma só vez em Santo Tomás a palavra nativitas
no sentido de tema de genitura: na citação do Centiloquium que referimos na p. 233. Esta citação é aliás a única
predição astrológica concreta que encontramos, e é introduzida por uma
formula muito dubitativa.
Sucede-lhe
outra vez mencionar os patronatos estrelares dos sete dias da semana, mas é
para observar que se pode, sem perigo para a fé, adotar ou rejeitar essa
teoria.
4.
Ele admite que, em princípio, os astrólogos predizem corretamente o futuro dos
homens. Eis as dez referências que conhecemos. Nas três últimas em data, diz
que as predições são justas ut in
pluribus.
II
Sent.,
7, 2, 2, ad 5: Quando as predições têm em vista os atos humanos livres, são
amiúde falsas.
II
Sent.,
15, 1, 3, ad 4: As predições são verdadeiras plerumque, mas porque os demônios ajudam o astrólogo.
II
Sent.,
25, 2, ad 5: As predições fazem-se conjecturaliter et non per certitudinem scientiae.
C.
G. III, 84:
Os astrólogos podem julgar do nível intelectual de um homem (não há indicação
sobre a freqüência dos julgamentos justos).
C.
G. III, 85:
A impressão das estrelas produz seu efeito na maior parte dos homens, a saber,
naqueles que não resistem a suas paixões.
C.
G. III,
154: Os demônios podem fazer muitas predições justas (mais acima Santo Tomás
mais ou menos equiparou a ciência das demônios e a dos astrólogos).
De
sortibus,
c. 4, n. 660: Os astrólogos predizem justamente quandoque, e enganam-se amiúde nas predições particulares.
Ia.,
115, 4, ad 3: Os astrólogos predizem justamente ut
in pluribus, sobretudo nas predições gerais.
Ia.IIae.,
9, 5, ad 3: Eles predizem justamente ut in
pluribus.
IIa.
IIae.,
95, 5, ad 2: Eles predizem justamente frequenter.
5.
Acerca da licitude da advinhação astrológica, temos seis textos, onde o
ensinamento permanece constante ao longo da carreira de Santo Tomás, sem que se
possa discernir uma evolução nem para mais nem para menos severidade. A
doutrina resume-se a isto: não é supersticioso nem ilícito buscar prever
pelos astros as secas, as chuvas etc. É supersticioso e ilícito buscar prever
pelos astros as ações livres humanas, e, segundo a autoridade de Santo
Agostinho, o demônio imiscui-se amiúde nesse gênero de consultas, que se
tornam por isso mesmo um pacto com o demônio.
APÊNDICE II
O
ENSINAMENTO DOS SANTOS DOUTORES
Santo Tomás, logo no início de sua epístola, afirma que não procurará escrever senão sobre aquilo que ensinaram os santos doutores sobre o tema (ea quae a sacris doctoribus traduntur). Com efeito, a oposição às adivinhações astrológicas e outras supertições não é uma peculiaridade do Aquinate — ao contrário, é ela quase tão antiga quanto a própria Igreja. Façamos um breve retrospecto e ouçamos a voz da Igreja.
Talvez
a primeira coisa que se deva dizer acerca da consulta aos astros é que ela
está formalmente condenada desde os primeiros séculos da Igreja, como se vê
no Denziger:
[Dz
35] Se alguém pensa que se deve crer na astrologia, seja anátema.
[Concílio de Toledo, ano 400].
E,
novamente, pelo Papa João III, no século VI:
[Dz
239] Se alguém crê que as almas
humanas estão ligadas a um signo fatal, como disseram os pagãos e Prisciano,
seja anátema.
Estas definições, suficientes para todo católico que não tem nem quer ter espírito de revolta, foi ainda repetida por inúmeros Santos, Doutores e Teólogos. Mesmos em nossos dias, não deixou o Magistério de condená-la, como se vê em trechos do Catecismo de S. Pio X ou em determinada alocução do Papa reinante.
As
condenações à astrologia são antiqüíssimas. Se tentássemos fazer uma história
destas condenações, começaríamos com as próprias Sagradas Escrituras: Dt.
4:19, 17:3, 2 Rs. 17:16, 21:3 Jr. 8:2.
Passaríamos,
em seguida, ao Catecismo dos Apóstolos, chamado Didaqué:
“[...]
Também não pratique encantamentos, astrologia ou purificações, nem queira
ver ou ouvir sobre essas coisas, pois de todas essas coisas provém a
idolatria.” [Didaqué,
ed. Paulus, 1989, pp. 12-13]
Mais um passo, e encontraríamos as objeções dos Padres da Igreja. Citemos alguns autores:
—
Tertuliano: “Observamos entre as artes algumas acusáveis de idolatria. Dos
astrólogos, nem deveríamos falar; mas como nesses dias um deles nos desafiou,
defendendo em proveito próprio a perseverança nesta profissão, direi algumas
palavras. Alego não que ele honre ídolos, cujo nome escreveu nos céus, para
quem atribui todo o poder de Deus... Proponho o que segue: aqueles anjos, os
desertores de Deus [demônios]... eram muito provavelmente os descobridores
dessa curiosa arte [a astrologia] por isso mesmo condenada também por Deus” (Idolatria 9 [211 D.C ]).
—
Hipólito: “Quão impotente é o sistema [astrológico] para comparar as
formas de disposições dos homens com os nomes das estrelas!” (Refutação
de Todas Heresias 4:37 [228 D.C.]).
—
Taciano o Sírio: “[Sob a influência de demônios] os homens formam o
material de sua apostasia. Tendo a eles mostrando o plano da posição das
estrelas, como jogadores de dados, introduzem o Destino, uma injustiça patente.
O julgamento e o julgado são feitos pelo Destino, os assassinos e os
assassinados, os afluentes e os necessitados – [todos são] o produto do mesmo
Destino” (Discurso Aos Gregos 8
[D.C. 170])
Escutemos
agora os Doutores
da Igreja:
— Sto. Atanásio: “Donde ser verdade que os autores de tais
livros [os astrólogos] acarretaram a si próprios uma dupla reprovação, pois
aprofundaram-se em uma desprezível e mentirosa ciência”.
(Carta de Páscoa 39:1 [D.C.
367])
— Sto. Basílio Magno: “Aqueles que ultrapassam os limites,
fazendo das palavras da Escritura sua apologética para a arte de calcular temas
de genitura [horóscopos], pretendem que nossa vida dependa da moção dos
corpos celestes, e assim os Caldeus lêem nos planetas o que nos ocorrerá”. (Os
6 dias da Criação 6:5 [D.C. 370])
— Sto. João Crisóstomo: “(...) E de fato uma treva profunda oprime o mundo. É ela que devemos fazer dissipar e dissolver. E tal treva não se encontra somente entre os heréticos e os gregos, mas também na multidão do nosso lado, no que diz respeito às doutrinas da vida. Pois muitos [os Católicos] descrêem inteiramente na ressurreição; muitas fortificam-se com o horóscopo; muitos aderem a práticas supersticiosas, augúrios e presságios”. (Homilias sobre Coríntios I, 4:11 [D.C. 392])”.
Para
não nos alongarmos demasiadamente em citações, mencione-se apenas que também
condenaram a astrologia Sto. Isidoro de Sevilha, na sua obra Etimologias,
Sto. Boaventura, no Hexaemeron
(onde qualifica a astrologia de “abuso da razão”), Sto. Afonso Maria de
Ligório, doutor em teologia moral, para quem praticar
astrologia é incorrer em pecado mortal (Comentário
aos Dez Mandamentos).